A internet entrou em guerra fria?

A Europa acelera a “desamericanização” digital. E isso pode influenciar os próximos movimentos do Brasil e da América Latina.

Durante décadas, a internet parecia uma grande festa americana. Os sistemas eram americanos, as clouds eram americanas, os aplicativos eram americanos e, convenhamos, até os bugs vinham em inglês.

Mas isso começou a mudar e a velocidade dessa mudança surpreende até quem acompanha o setor de perto.

Infraestrutura virou questão de soberania

A ideia central que começou a dominar a Europa é direta: quem controla cloud, IA, sistemas e dados controla poder político, econômico e cultural.

A internet deixou de ser apenas tecnologia e passou a ser infraestrutura estratégica. Como energia. Como logística. Como qualquer ativo que, quando falha ou é controlado por terceiros, compromete a operação de um país inteiro.

Esse movimento ganhou força depois de uma combinação de fatores que se acumularam ao longo dos últimos anos:

  • Dependência extrema das grandes plataformas americanas
  • Risco real de lock-in tecnológico em setores críticos
  • Tensões geopolíticas crescentes entre EUA e Europa
  • Avanço acelerado da IA e disputa por infraestrutura de processamento
  • O CLOUD Act americano, legislação que permite ao governo dos EUA solicitar dados de empresas americanas mesmo quando armazenados fora do território nacional

Esse último ponto, em especial, não caiu bem entre governos europeus. E com razão.

A guerra agora é pela cloud

O conceito mais relevante desse momento é a Sovereign Cloud, cloud hospedada localmente, sob leis locais e protegida de interferência estrangeira.

Os movimentos já estão acontecendo:

A França decidiu migrar seu sistema público de saúde — um dos maiores da Europa — da Microsoft para a provedora nacional Scaleway. A Alemanha começou a remover o Microsoft de milhares de computadores públicos, substituindo por Linux e LibreOffice. Dinamarca, Itália e Áustria aceleram iniciativas semelhantes.

Open source, que até pouco tempo parecia discussão técnica de nicho, virou política industrial europeia. A tecnologia que uma nação adota passou a ser tratada como escolha estratégica — não apenas operacional.

O detalhe mais importante não é tecnológico

A parte mais relevante desse movimento talvez seja cultural. A Europa começou a tratar tecnologia como identidade e como instrumento de autonomia.

A pergunta deixou de ser “qual ferramenta funciona melhor?” e passou a ser “quem queremos que esteja no controle da nossa infraestrutura digital?”

Quando um bloco econômico da dimensão da União Europeia começa a tratar IA, cloud e dados como questão de soberania, a neutralidade tecnológica se torna uma posição cada vez mais difícil de sustentar e cada vez mais cara de manter.

O impacto pode chegar forte na América Latina

A América Latina sempre operou numa lógica de alta dependência tecnológica americana. Cloud, produtividade, publicidade digital, infraestrutura, IA corporativa, quase tudo passa pelos EUA.

Mas se a Europa conseguir consolidar um modelo alternativo economicamente viável, outros mercados tendem a seguir caminhos parecidos. E o Brasil aparece numa posição particularmente estratégica nessa história.

O Brasil pode virar peça importante desse tabuleiro

O país já reúne ingredientes que favorecem essa transição:

  • LGPD consolidada e ANPD com poderes regulatórios ampliados
  • Avanço do debate regulatório sobre IA e dados
  • Crescimento acelerado de infraestrutura local de data centers
  • Aumento do uso corporativo de soluções open source
  • Pressão crescente sobre governança de dados em setores regulados

Além disso, o Brasil possui algo que o mundo inteiro começa a disputar de forma silenciosa: energia e capacidade para data centers. A nova corrida da IA não depende apenas de software, depende de infraestrutura física de grande escala. Data center virou ativo estratégico na economia digital, e o Brasil tem condições reais de competir nesse campo.

Se essa tendência se consolidar, a América Latina pode deixar de ser apenas consumidora de tecnologia para disputar relevância na própria infraestrutura digital global.

O futuro talvez seja menos global do que parecia

Durante anos, a internet caminhou para um modelo cada vez mais centralizado. O movimento agora aponta na direção oposta: fragmentação intencional.

Uma internet americana. Uma chinesa. Uma europeia. Versões regionais cada vez mais independentes, com regras, infraestrutura e prioridades distintas.

Parece um roteiro especulativo. Mas é política industrial acontecendo agora.

Onde as empresas entram nisso tudo

Nesse cenário, empresas que entenderem cedo essa transformação operam com anos de vantagem sobre o mercado.

Porque transformação digital já não significa apenas adotar novas ferramentas. Envolve:

  • Soberania de dados e controle jurisdicional real
  • Avaliação de risco geopolítico na escolha de fornecedores
  • Governança tecnológica como disciplina estratégica
  • Infraestrutura com visibilidade, controle e continuidade
  • Independência operacional proporcional ao tamanho da operação

A próxima década deve separar empresas que apenas usam tecnologia das que realmente entendem o tabuleiro que está sendo montado por trás dela.

A Skynova acompanha esse movimento de perto e ajuda empresas brasileiras a estruturar infraestrutura com soberania, controle e continuidade operacional real. Se sua empresa quer antecipar essa curva, o caminho começa em skynova.com.br.

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Cristian Gallegos é diretor de marketing na Skynova, com trajetória voltada à integração entre estratégia, tecnologia e comportamento humano. Atua na linha tênue entre dados e propósito, explorando como a inteligência artificial, a cultura e a gestão podem coexistir de forma ética e criativa. Na Skynova, estimula iniciativas de inovação com IA no marketing e demais áreas, conectando visão estratégica a práticas reais de negócio.

Fontes: Reuters — França trocando Microsoft por Scaleway / WIRED — Europe Is Breaking Open the Empires of Big Tech / TechCrunch — Europe’s efforts to ditch US software